Depois que você toma uma série de decisões erradas acaba se acostumando com isso. Primeiro fica revoltado consigo mesmo; nunca achou que fosse capaz de julgar uma situação tão mal. Depois de outra série de atitudes igualmente erradas e descabidas, aprende-se que não se pode chorar pelo leite derramado, então começa a se conformar com o seu talento nato para estragar a própria vida – E a das pessoas que o rodeiam – E ainda sim, depois de tudo isso, mais decisões erradas, e consequências impossíveis de serem suportadas dentro dos parâmetros humanos. Daí você aprende da pior maneira possível (porque se trata de você mesmo), a não se importar mais. Não interessa se quem vai pro buraco é só você, ou se vai arrastar um monte de gente pro abismo fracassado que é a sua vida; não importa. Ele não se importa mais com o fato de que sua vida não tem jeito, é um fracasso e sempre vai ser. Ele já se revoltou, se conformou e agora não rema mais contra a maré. Cansou, seus braços cansaram – parou de lutar. Já não se importa mais. A vida perdeu o significado e o sentido, perdeu a cor. Ele toma café porque está habituado a tomar café, não porque quer sentir o gosto amargo lhe pelar a língua e descer fervendo pela garganta. O café extraforte não tem mais sabor, é só uma água preta quente que o deixa pilhado por algum tempo. Ele fuma e não é pelo sabor ou estilo que os seus “amigos” cigarros proporcionam. Fuma porque já se tornou compulsivo e simplesmente não se pode mais parar: Se tornou uma distração pra quando tudo a sua volta desaba, e não se pode gritar até a sua garganta sangrar. Ele tenta, mas não consegue. E é aí que se deu conta de um único fator, o fator chave de sua vida: “Hey cara, você não se importa mais”. Câncer no pulmão? Quem dera ter essa sorte. Pelo menos ele teria uma desculpa para desistir da vida, sem escândalos, sem ladainha.
Quando perde a graça.
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